"...Quando cheguei ao quarto, vi que Jesse já estava de pé.
Em geral ele não faz visitas matinais. Por outro lado, normalmente eu não durmo durante trinta e seis horas direto, por isso acho que nenhum de nós estava seguindo rigidamente a programação.
De qualquer modo, eu não esperava encontrá-lo ali, por isso pulei mais de meio metro e escondi às costas a mão que segurava sua miniatura.
Puxa, qual é! Não quero que ele ache que eu gosto dele nem nada.
- Você acordou - disse ele do banco da janela, onde estava sentado com Spike e um exemplar de Steal This Book, de Abbie Hoffman, que eu tinha roubado da estante de minha mãe lá embaixo.
- É ... - falei, deslizando até a cama. Talvez, se fosse suficientemente rápida, poderia enfiar a pintura embaixo do travesseiro antes que ele notasse. - Acordei sim.
- Como está se sentindo?
- Eu? - perguntei como se houvesse mais alguém no quarto com quem ele pudesse estar falando.
Jesse pousou o livro e me olhou com outra daquelas expressões. Você sabe, do tipo que eu nunca consigo decifrar.
- Estou ótima.
- Bom. Precisamos conversar.
De repente não me sentia mais relaxada. De fato, saltei de pé. Não sei por quê, mas meu coração começou a bater muito depressa.
Conversar. Sobre o que ele quer conversar? Minha mente ia a duzentos por hora. Acho que deveríamos conversar sabre a que tinha acontecido. Quero dizer, foi bem apavorante e coisa e tal, quase morri, e, como Paul disse, tenho um monte de perguntas.
Mas e se fosse sobre isso que Jesse queria falar? Quero dizer, sabre a parte em que quase morri?
Eu não queria falar disso. Porque o fato é que toda essa parte, a parte em que quase morri, bem, quase morri tentando salvá-lo. Sério. Esperava que ele não tivesse notado, mas pela sua cara dava para ver que tinha, totalmente. Quero dizer, notado.
E agora queria falar sobre isso. Mas como é que eu poderia falar sabre isso? Sem deixar escapar. Quero dizer, a palavra que começa com "a".
- Sabe de uma coisa? - falei bem depressa. - Não quero conversar. Tudo bem? Realmente, realmente não quero conversar. Estou cheia de conversas.
Jesse tirou Spike do colo e o pousou no chão. Depois se levantou.
O que ele estava fazendo? O que ele estava fazendo? Respirei fundo e continuei falando sobre não falar.
- Só estou ... olha - falei enquanto ele dava um passo na minha direção. - Só vou ligar para Cee Cee e talvez a gente vá à praia ou alga assim. Porque realmente ... preciso de uma folga.
Outro passo na minha direção. Agora ele estava bem na minha frente.
- Principalmente de conversas - falei de modo significativo, olhando para ele. É disso que eu preciso especialmente de uma folga. De conversas.
- Ótimo – respondeu Jesse. Em seguida estendeu as mãos e segurou meu rosto. - Não precisamos conversar.
E foi então que ele me beijou. Na boca."
(A Mediadora – A Hora Mais Sombria, pag. 164)
E foi então que ele me beijou. Na boca.
Postado por
Mariana Flores
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terça-feira, 15 de junho de 2010

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